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Ibovespa aos 100 mil pontos: relembre como o índice perdeu esse patamar – e sua caminhada de volta até lá


SÃO PAULO – Um dos eventos mais comemorados da história do mercado acionário brasileiro foi o atingimento dos 100 mil pontos pelo Ibovespa em 19 de junho de 2019. Este patamar acabou se tornando um número mágico na Bolsa e a comoção foi grande quando ele foi perdido em março deste ano.

Com a retomada dos 100 mil pontos pelo Ibovespa nesta sexta-feira (10) em meio ao maior otimismo externo com dados positivos sobre o tratamento para o coronavírus com o medicamento remdesivir, vale a pena relembrar a trajetória do índice que levou à perda e depois à recuperação deste nível.

O crash do coronavírus

O Ibovespa passou todo o início do ano acima dos 100 mil pontos. A perda ocorreu no auge da crise do coronavírus no pregão da sexta-feira, dia 6 de março, quando o benchmark caiu 4,14% a 97.996 pontos.

Quem torceu para o mercado se acalmar e retomar os 100 mil pontos na volta do fim de semana não podia ter ficado mais decepcionado: no dia 9 de março tivemos o primeiro dos seis circuit breakers do ano e o Ibovespa despencou 12,17%, a 86.067 pontos. O motivo para a derrocada foi que além da crise do coronavírus, os investidores ainda tiveram que enfrentar a guerra do petróleo, que estourou no domingo.

A Arábia Saudita – país que mais exporta petróleo no mundo – anunciou que aumentaria substancialmente sua oferta e ofereceria a commodity com até 20% de desconto em alguns mercados, em uma resposta direta à Rússia, que não aceitou reduzir sua produção. Como resultado, o barril do petróleo Brent já abriu em queda de 30% na Ásia enquanto as primeiras bolsas ocidentais levariam ainda mais sete horas para começarem as negociações.

O Ibovespa ensaiou uma recuperação no pregão seguinte, subindo 7,14%, mas o repique só serviu para abrir um espaço maior para quedas. Nos dois pregões subsequentes a Bolsa desabou 7,64% e 14,78%, acionando mais dois circuit breakers. A alta de 13,91% logo em seguida foi apenas a prova de que a racionalidade tinha abandonado de vez o mercado financeiro.

No dia 16 de março o Ibovespa caiu mais 13,92%, com o acionamento de outros dois circuit breakers. Em onze dias o principal índice da B3 saiu de 102.233 pontos para 71.168 pontos. Uma alta de 4,85% no pregão seguinte e mais um circuit breaker e queda de 10,35% no outro levaram o índice aos 66 mil pontos.

A retomada gradual

O ponto mais baixo foi atingido no dia 23 de março, quando o Ibovespa, na mínima do pregão, bateu 62.161 pontos. Desde então, a tendência virou e a Bolsa passou a subir aos poucos, fazendo valer o famoso ditado do mercado financeiro de que a Bolsa “cai de elevador e sobe de escada”.

As duas maiores altas no período vieram nos pregões do dia 24 de março, em que o benchmark disparou 9,69%, e do dia 25 de março, no qual o índice subiu 7,5%. Os ganhos vieram em meio ao anúncio de que governo e Congresso dos EUA haviam chegado a um acordo para o lançamento de um pacote de US$ 2 trilhões em estímulos.

Já no dia 6 de abril a Bolsa teve alta de 6,52% seguindo o exterior após o presidente americano Donald Trump afirmar que os EUA estavam passando por um “nivelamento” dos casos do coronavírus em algumas das regiões mais afetadas pela pandemia.

Desde então os mercados globais se apoiaram no aumento de liquidez promovidos pelos bancos centrais, que zeraram taxas de juros e se comprometeram com ambiciosos programas de compras de títulos para injetar dinheiro nos bancos privados e os estimularem a emprestar esse capital e fazer a moeda girar na economia.

Maior banco central do mundo, o Federal Reserve dos EUA reduziu no dia 15 de março os juros em 1 ponto percentual para uma faixa entre 0% e 0,25% ao ano em uma reunião extraordinária fora da agenda. O Fed ainda anunciou a compra de US$ 700 bilhões em títulos do Tesouro americano.

Recentemente, no dia 4 de junho, o Banco Central Europeu (BCE), aumentou em 600 bilhões de euros seu programa de compras de títulos para enfrentar a emergência da pandemia, para 1,35 trilhão de euros mensais.

Aqui no Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom), cortou a Selic no último dia 17 em 0,75 ponto percentual, para 2,25% ao ano, menor patamar histórico dos juros brasileiros.

Atualmente, a meta de inflação do Banco Central é de 4% ao ano, mas o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado em 12 meses está em 1,88%, de modo que a taxa de juros real (acima da inflação) paga pelos títulos públicos brasileiros atrelados à Selic está em 0,37% ao ano.

Com mais dinheiro nas mãos dos investidores e a renda fixa com rendimento próximo de zero a solução se torna investir em ações. Para diversos analistas, esse é um dos principais motivos que impulsionaram a recuperação do Ibovespa rumo aos 100 mil pontos.

Além da maior liquidez, o otimismo com a recuperação da economia global também estimula as compras no mercado de renda variável. Em 5 de junho, o Departamento de Trabalho dos EUA, revelou que o país criou 2,5 milhões de empregos em maio. O número surpreendeu todas as expectativas, com os economistas prevendo destruição de 7,5 milhões de postos de trabalho.

No Ibovespa, isso se traduziu em uma alta de 0,86% na sexta-feira, dia 5, e de 3,18% na segunda-feira, dia 8. Os dois pregões encerraram a maior sequência de altas da Bolsa este ano: foram sete dias consecutivos de ganhos, que começaram no dia 29 de maio.

Nesta sexta-feira (10), na reta final do pregão, o índice ganhou força e, após uma leve queda na véspera, fechou em alta de 0,88%, fazendo com que o índice voltasse aos 100 mil pontos.

Trimestres opostos

A volatilidade da Bolsa na primeira metade do ano gerou um fenômeno curioso. O Ibovespa teve no primeiro trimestre sua maior queda da história em três meses, desabando 36,9%. Já no segundo trimestre, o índice disparou 31%, em seu melhor desempenho desde 2003.

Segundo Bruce Barbosa, analista da Nord Research, a derrocada se deve ao otimismo exacerbado no pré-crise. Ele acredita que na máxima do ano, atingida no dia 24 de janeiro, momento em que o Ibovespa bateu 119.593 pontos, muitos investidores estavam entrando em ativos de risco e tiveram um choque com a pandemia.

“Não foi a primeira pandemia que surgiu na Ásia, mas fomos pegos no contrapé pelo grau do contágio na Covid-19”, avalia. Para ele, isso gerou uma quebra de expectativas muito forte, pois o País caminhava na direção que o mercado considera correta, com a aprovação da Reforma da Previdência e encaminhamento das Reformas Administrativa e Tributária, e todo o otimismo acabou varrido pelas circunstâncias.

“Os investidores viam o [Produto Interno Bruto] PIB melhorar e acabamos voltando alguns passos para trás”, explica.

Barbosa atribui a retomada a um exagero na queda inicial. “A Bolsa a 60 mil pontos não fazia nenhum sentido com os resultados das empresas mesmo tirando um ano de valuation das companhias de capital aberto. E em nenhum lugar do mundo a Bolsa caiu 50%”, ressaltou.

O aumento na liquidez provida pelos bancos centrais do mundo, a esperança de uma vacina contra o coronavírus e a reabertura econômica de diversos países que passaram por quarentenas impulsionaram a Bolsa nos últimos três meses.

Para o futuro, Barbosa espera que a Bolsa siga como uma oportunidade de investimento melhor que o CDI, atualmente em sua mínima histórica, pois acredita que estruturalmente as condições macroeconômicas do País mudaram.

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